'Sofri um AVC aos 30 anos e fui salva por uma terapia que conheci na Itália. Recuperada, trouxe o método ao Brasil para mudar outras vidas'
A publicitária Giuliana Cavinato conta que estava com a vida nos trilhos: aos 30 anos ela se preparava para se mudar para Nova York a trabalho, mas seus planos mudaram quando teve um AVC. Em depoimento ao Eu, Leitora, ela conta como evitou as sequelas ao conhecer uma terapia na Itália. Hoje, ela abriu um instituto no Brasil para capacitar profissionais e ajudar outros pacientes
Por Giuliana Cavinato em depoimento a João Maturana — do Rio de Janeiro (RJ)
08/09/2024 04h20 Atualizado 10/09/2024 19h27
"Meu nome é Giuliana Cavinato, tenho 38 anos, moro em São Paulo e sou publicitária, co-fundadora e comunicadora do Instituto Avencer. Em 2016, eu estava começando na carreira e me preparava para trabalhar em Nova York. Antes da viagem, fui passar o Carnaval em Ibiúna, em São Paulo, com alguns amigos e o meu --- até então -- namorado. Estávamos em uma represa praticando wakeboard quando sofri uma pancada muito forte que me causou um AVC e uma sequente afasia.
Quando caí, não cheguei a desmaiar, mas tive muita dor de cabeça. Ainda insisti mais um pouco, porque eu amo wakeboard e fazia muito tempo que eu não praticava, então pensei em treinar mais um pouco depois da queda. As horas foram passando, estava todo mundo feliz, animado... até que não deu mais para mim. Decidi parar um pouco no barco e deitei, só que a dor continuava muito forte. Logo depois, a gente foi embora, com meu ex-namorado me levando em um quadriciclo.
Voltando para casa, desmaiei no veículo. Uma pessoa que estava à frente com um carro foi quem avisou meu parceiro que eu estava desacordada. Desesperado, ele me levou em um posto médico que tinha no condomínio em que a gente estava. Na hora, o médico reconheceu que era um AVC, rapidez que foi fundamental. Quanto mais rápido você consegue identificar, mais você previne as futuras sequelas que podem vir. Então, eu tive essa sorte.
Fui levada de ambulância para um hospital para receber os primeiros atendimentos. Minha mãe e meu pai estavam no interior e foram para São Paulo. Foram 4h de deslocamento.
Lembro de muitos flashes desse episódio: eu acordando na ambulância e vendo meu ex-namorado vomitando, eu no hospital... não lembro de tudo, mas recordo de estar na sala de cirurgia para fazer o procedimento de trombólise, que é uma injeção para diluir o coágulo, que apareceu porque tive um AVC isquêmico. Em seguida, como o procedimento não deu resultado, tive que fazer uma trombectomia, colocando um cateter na virilha, que passa pelo coração até chegar na entrada do cérebro. Também tive que colocar uma rede na carótida onde houve o trauma. Fiz esse procedimento acordada, porque não podia tomar anestesia. Era uma dor alucinante.
Voltando para casa, desmaiei no veículo. Uma pessoa que estava à frente com um carro foi quem avisou meu parceiro que eu estava desacordada. Desesperado, ele me levou em um posto médico que tinha no condomínio em que a gente estava. Na hora, o médico reconheceu que era um AVC, rapidez que foi fundamental. Quanto mais rápido você consegue identificar, mais você previne as futuras sequelas que podem vir. Então, eu tive essa sorte.
Fui levada de ambulância para um hospital para receber os primeiros atendimentos. Minha mãe e meu pai estavam no interior e foram para São Paulo. Foram 4h de deslocamento.
Lembro de muitos flashes desse episódio: eu acordando na ambulância e vendo meu ex-namorado vomitando, eu no hospital... não lembro de tudo, mas recordo de estar na sala de cirurgia para fazer o procedimento de trombólise, que é uma injeção para diluir o coágulo, que apareceu porque tive um AVC isquêmico. Em seguida, como o procedimento não deu resultado, tive que fazer uma trombectomia, colocando um cateter na virilha, que passa pelo coração até chegar na entrada do cérebro. Também tive que colocar uma rede na carótida onde houve o trauma. Fiz esse procedimento acordada, porque não podia tomar anestesia. Era uma dor alucinante.
Tive AVC e afasia, que é um distúrbio de linguagem, então não conseguia falar, nem escrever e nem ler direito. Eu não podia me expressar. Pensava: 'meu Deus, me ajuda. Queria estar anestesiada'. Isso eu lembro muito bem, porque me marcou muito. Fiquei 10 dias na UTI sem conseguir nem falar direito, só com alguns murmúrios, tentando dizer algumas palavras. Metade do meu corpo era praticamente um vegetal, paralisou o lado direito, e saí do hospital um mês depois. Foi quando comecei a fazer fisioterapia e reabilitação.
Eu não sabia o que tinha acontecido comigo até a minha mãe perguntar se eu tinha noção do que era. Ela me informou que tive um AVC. Meu corpo estava travado. Não conseguia falar direito e aí comecei a chorar desesperadamente. Eu tinha 30 anos e tinha tido um AVC. Eu era muito jovem. É uma coisa louca de pensar. Senti que meu corpo estava deformado. Não fisicamente, mas despedaçado. Sentia como se fosse uma agressão, porque foi como se tivesse interrompido um ciclo natural.
Eu não sabia o que tinha acontecido comigo até a minha mãe perguntar se eu tinha noção do que era. Ela me informou que tive um AVC. Meu corpo estava travado. Não conseguia falar direito e aí comecei a chorar desesperadamente. Eu tinha 30 anos e tinha tido um AVC. Eu era muito jovem. É uma coisa louca de pensar. Senti que meu corpo estava deformado. Não fisicamente, mas despedaçado. Sentia como se fosse uma agressão, porque foi como se tivesse interrompido um ciclo natural.
'Senti que meu corpo estava deformado' - Giuliana Cavinato
Voltando para casa do hospital, tentei ler algumas placas na estrada, mas parecia que estava escrito em grego. Me marcou muito essa sensação de não conseguir nem expressar o que queria e nem entender as coisas. Foi muito ruim.
Fazia fisioterapia em casa. Revezava entre a minha casa e o hospital. Meu dia começava às 6h da manhã e fazia alongamento, ginástica, terapia ocupacional, hidroginástica, terapia de choque, robótica... todas as reabilitações possíveis e imagináveis. Os médicos falam que há uma janela de seis meses a um ano de oportunidade para se recuperar. Se você não fizer isso, vai viver com sequelas. Isso foi como um golpe para os meus pais. Ver a filha com um grande futuro pela frente se tornar totalmente dependente aos 30 anos os deixou devastados.
Fazia fisioterapia em casa. Revezava entre a minha casa e o hospital. Meu dia começava às 6h da manhã e fazia alongamento, ginástica, terapia ocupacional, hidroginástica, terapia de choque, robótica... todas as reabilitações possíveis e imagináveis. Os médicos falam que há uma janela de seis meses a um ano de oportunidade para se recuperar. Se você não fizer isso, vai viver com sequelas. Isso foi como um golpe para os meus pais. Ver a filha com um grande futuro pela frente se tornar totalmente dependente aos 30 anos os deixou devastados.
Por isso, tinham pressa em tentar de tudo para ajudar a me recuperar. Depois de quase 8 meses de fisioterapia no Brasil, um primo meu disse para eu ir para a Itália, porque lá tinha um método incrível que poderia me ajudar. Ele insistiu muito, mas tinha receio porque, mesmo que eu falasse inglês e italiano, eu perdi a minha habilidade de falar. Se eu não conseguia falar nem português direito, imagina italiano.
Fisioterapia italiana ajudou Giuliana Cavinato a recuperar movimentos após AVC — Foto: Arquivo pessoal
Mas, como ainda estava sentindo muitas dores e andando muito pouco também, decidimos acatar a sugestão dele. Já tinha feito tudo que tinha para fazer, ido aos melhores hospitais, testado as melhores técnicas... então, fomos para a Itália.
Lá, encontramos esta reabilitação chamada 'Reabilitação Neurocognitiva - Método Perfetti', que tem origem no médico neurologista que criou essa técnica, Carlo Perfetti, ainda nos anos 70. No meu primeiro contato, a fisioterapeuta disse para eu fechar os olhos e colocar os pés na mesma posição. Ela mexeu em um deles e me pediu para alinhar. Foi aí que eu percebi que eles ficavam em posições completamente diferentes. Desde o AVC, nunca me perguntaram o que eu sentia no pé, na mão, ou no meu corpo. Mesmo depois de sete meses, nunca tinha percebido que eu não sentia o meu pé -- até aquele momento.
Lá, encontramos esta reabilitação chamada 'Reabilitação Neurocognitiva - Método Perfetti', que tem origem no médico neurologista que criou essa técnica, Carlo Perfetti, ainda nos anos 70. No meu primeiro contato, a fisioterapeuta disse para eu fechar os olhos e colocar os pés na mesma posição. Ela mexeu em um deles e me pediu para alinhar. Foi aí que eu percebi que eles ficavam em posições completamente diferentes. Desde o AVC, nunca me perguntaram o que eu sentia no pé, na mão, ou no meu corpo. Mesmo depois de sete meses, nunca tinha percebido que eu não sentia o meu pé -- até aquele momento.
"Mesmo depois de sete meses, nunca tinha percebido que não sentia o meu pé" - Giuliana Cavinato
Então, o primeiro trabalho foi para voltar a sentir. Comecei a chorar, porque entendi que eu andava, mas eu não sentia. Fiz três temporadas de dois meses internada lá, voltando para o Brasil nos intervalos. Tinha sessões de fisioterapia de manhã e de tarde e ficava muito cansada. Meu cérebro derretia, era como uma maratona misturada com preparação para vestibular.
A diferença entre esse método e o que eu encontrei aqui no Brasil era que eles traziam essa proposta de integração entre as partes motora, cognitiva e sensorial, com os exercícios reunindo os três aspectos. A proposta era fazer o paciente ter consciência do próprio corpo e, aos poucos, retomar os movimentos, os processos cognitivos e tudo mais.
Minha fisioterapeuta do Brasil ficou impressionada e decidiu ir até a Itália para conhecer também. Foi aí que ela começou a formação dela. As pessoas não conheciam o método aqui. A minha mãe começou a aprender algumas técnicas para aplicar em mim quando voltávamos. Por isso, decidimos trazer o método para o Brasil.
Nesse tempo, criei um canal no YouTube para falar sobre como é a vida depois do AVC, fazendo fisioterapia, coisas assim, porque vi que não tinha um espaço que falava sobre os jovens que passaram por isso. Ele se chamava Avencer. Queria incentivar as pessoas a lutarem, saírem de casa, conviver socialmente, e não se fechar em casa.
A diferença entre esse método e o que eu encontrei aqui no Brasil era que eles traziam essa proposta de integração entre as partes motora, cognitiva e sensorial, com os exercícios reunindo os três aspectos. A proposta era fazer o paciente ter consciência do próprio corpo e, aos poucos, retomar os movimentos, os processos cognitivos e tudo mais.
Minha fisioterapeuta do Brasil ficou impressionada e decidiu ir até a Itália para conhecer também. Foi aí que ela começou a formação dela. As pessoas não conheciam o método aqui. A minha mãe começou a aprender algumas técnicas para aplicar em mim quando voltávamos. Por isso, decidimos trazer o método para o Brasil.
Nesse tempo, criei um canal no YouTube para falar sobre como é a vida depois do AVC, fazendo fisioterapia, coisas assim, porque vi que não tinha um espaço que falava sobre os jovens que passaram por isso. Ele se chamava Avencer. Queria incentivar as pessoas a lutarem, saírem de casa, conviver socialmente, e não se fechar em casa.
Mulher que sofreu AVC aos 30 conseguiu recuperar boa parte dos movimentos e hoje em dia mora e faz viagens sozinha — Foto: Arquivo pessoal
Os primeiros vídeos tiveram cortes, porque eu não conseguia falar de forma direta, então alterava na hora da edição. Esse canal serviu para mostrar para outros jovens vítimas de AVC que eu estava passando pelas mesmas coisas e sentindo as mesmas coisas. Por isso, acabei crescendo bastante na internet e até hoje sou reconhecida em eventos por conta disso. Cheguei a ser convidada para fazer uma pintura no minhocão em um prédio pelo Dia Nacional de Prevenção ao AVC. Na época, até fiz um curso de segurança para poder me pendurar no prédio. Foi muito incrível essa experiência, pela autonomia que veio junto.
Giuliana Cavinato foi convidada a pintar mural em minhocão para Dia Nacional de Prevenção ao AVC — Foto: Arquivo pessoal
Com tudo isso acontecendo, criamos o Instituto Avencer, seis anos atrás. Ele surgiu com essa vontade de olhar para mim e ajudar as pessoas que passaram pelo mesmo que eu. Queríamos mostrar que existe um tratamento capaz de ajudar a trazer uma autonomia. Como no meu caso, que moro sozinha há 3 anos, viajo sozinha, trabalho no Instituto.
Temos uma clínica, mas ela é apenas parte do nosso tripé. O real foco do nosso trabalho é formar profissionais que consigam levar essa terapia para outras pessoas, multiplicando essa técnica para ajudar outras vítimas que passaram pelo mesmo que eu.
Hoje em dia, não faço mais tantas projeções para o futuro como costumava fazer. Eu vejo se consigo e se posso fazer algo, então faço. O meu sonho, na verdade, é reunir pessoas que passaram pela mesma coisa e mostrar que há outra possibilidade, uma chance de saída, e dar suporte para elas."
Temos uma clínica, mas ela é apenas parte do nosso tripé. O real foco do nosso trabalho é formar profissionais que consigam levar essa terapia para outras pessoas, multiplicando essa técnica para ajudar outras vítimas que passaram pelo mesmo que eu.
Hoje em dia, não faço mais tantas projeções para o futuro como costumava fazer. Eu vejo se consigo e se posso fazer algo, então faço. O meu sonho, na verdade, é reunir pessoas que passaram pela mesma coisa e mostrar que há outra possibilidade, uma chance de saída, e dar suporte para elas."